segunda-feira, 18 de abril de 2022
Ganhámos a taça!
Em 2012, no dia em que a Académica ganhou a Taça pela segunda vez, escrevi o poema que abaixo reproduzo.
Difundi-o então no meu blog O Grande Zoo. No final de 2021, publiquei na Editora Lápis de Memórias, o meu livro de poemas mais recente. "A cidade do Tempo" é uma ressonância poética de Coimbra. Nele incluí o poema que hoje transcrevo.
Hoje, que a Académica atravessa uma grande tempestade de infortúnio é indispensável uma verdadeira respiração do futuro. Com verdadeira grandeza; com imaginação e ousadia.
_______________________
-em 2012
O jogo começou há longos anos,
quando ganhámos a primeira vez.
Em maio de mil novecentos e sessenta e nove,
julgou-se que tínhamos perdido.
Cinco anos depois viu-se que não,
porque somos de um outro campeonato.
Foi talvez, por isso, que ganhámos
neste ano já de um outro século,
como se tudo tivesse começado.
E, no entanto, o jogo continua.
Há sempre um novo jogo a começar:
entram em campo todas as memórias.
Mas também a saudade e a alegria.
As capas são os ventos que não param.
Os ventos que são anos e são vida.
Há golos para todas as balizas.
O Bentes virá sempre pela esquerda.
No último minuto, o Artur Jorge
Há de marcar o golo de uma vida.
Ia ser golo já sem remissão,
mas o Capela voou mais que o possível
e a bola não entrou.
E hoje, quando a festa começou,
já o leão rugia rudemente;
a bola insidiosa veio da esquerda,
procurou a cabeça do Marinho
e o golpe foi desferido e foi mortal. .
Vamos entrar em campo novamente,
sabendo que a Briosa a entrar em campo,
é sempre muito mais do que ali está.
Cada golo é sempre mais que um golo:
milhares em todo o mundo vão marcá-lo.
Cada vitória é mais que uma vitória:
milhares em todo o mundo vão erguer-se,
num gesto de alegria.
E quando os onze perdem nunca perdem,
porque a Académica ganha moralmente.
E se, apesar de tudo, ainda perderem,
os onze sempre sabem que jamais
irão perder sozinhos.
O sonho estará sempre ao lado deles
e há sempre um outro jogo para ganhar.
Ganhámos esta taça.
Na praça da saudade estão connosco
os que partiram antes de a ganhar.
Vai haver nas ruas de Coimbra
um fraterno Mondego de pessoas,
um clamor de alegrias.
E se nas largas ruas da vitória
se abrir alguma porta de silêncio,
não estranhem,
são aqueles que partiram,
fazendo recordar a sua ausência.
O que hoje entrou em campo foi a lenda
e o mito de uma eterna juventude.
Briosa é nome de uma caravela,
mas o vento que a leva só é vento
de quem saiba sonhar sem desistir.
Por isso, se percebe com clareza
que nós somos de um outro campeonato.
domingo, 17 de abril de 2022
LOUVOR AO 17 DE ABRIL
[1969/2022]
A pérola do tempo descansou
na guitarralongínq1ua da saudade,
deixando que um só dia incendiasse
o sagrado sabor da liberdade.
Nas mãos nuas dos versos desarmados
que colhem a chegada da alegria,
foi gravada a lenda deste dia
respirou-se no vento a tempestade.
Um gume de revolta atravessou
o perfume da nossa primavera
e a verdade ficou no meio de nós,
colhendo-se inteira até ao fim.
Capas negras dos sonhos acordados
foram sangue no próprio coração,
dizendo-nos por dentro de quem somos
com as palavras livres e despertas.
Caminhámos por todos os lugares,
navegando sempre além do fim,
fomos cidade,amore sedução,
voz súbita de todos os poetas.
Quando os corvos do medo nos cercaram
não colhemos a flor do desespero,
erguemo-nos na nossa condição
e lutámos
[ 17 de Abril de 2022]
sábado, 17 de abril de 2021
Ressonância do 17 de Abril de 1969
Ressonância do 17 de Abril de 1969
-homenagem às lutas estudantis pela liberdade e pela justiça
Está em sépia o perfume deste dia,
navegando a memória, cheiro antigo.
Passa a brisa dos dias docemente,
quase luz, melancólica saudade.
Eram negros os corvos desse tempo,
cercando cada gesto, cada passo,
sem tréguas, com ódio, sem pudor,
apodrecendo mais em cada dia.
Abrimos a janela do futuro
num incêndio de paz e juventude.
Rasgámos o cinzento que doía,
respirando por dentro da alegria.
Quantos anos passaram desfilando
por glórias, sonhos e paixões.
Deixamos que a memória nos semeie,
colhemos esse dia e somos sempre.
[Rui Namorado- abril de 2021]
quarta-feira, 31 de março de 2021
Quarta evocação da Crise Académica de 1962 na sua dimensão coimbrã
A Torre, a “Cabra” e as horas ─ um episódio.
I- Como vos disse na segunda evocação da crise de 1962 feita há dias atrás, a Assembleia Magna tinha achado insuficiente o que a mediação dos professores tinha arrancado às autoridades, no decurso do processo negocial para o qual tinham sido mandatos pelos estudantes e que ostinha levado a sair voluntariamente da sede da AAC ( Palácio dos Grilos)onde estavam cercados pela polícia de choque .
Essa Assembleia Magna, reunida no Campo de Santa Cruz , uma vez que estava encerrada a sede da AAC no Palácio dos Grilos, rejeitou por isso a proposta da comissão de professores.
Como vos disse, o corolário natural dessa rejeição seria o regresso à sede da AAC, donde só tínhamos saído para permitir essa negociação. Falhada a negociação, haveria que voltar ao Palácio dos Grilos. Mas se tal fosse votado expressamente no Campo de Santa Cruz, quando chegássemos ao Palácio dos Grilos já lá estaria a polícia e não conseguiríamos entrar. Por isso, a decisão não foi formalmente tomada na Ass. Magna, tendo apenas sido passada a palavra de que iríamos até ao Pátio da Universidade.
Por isso, apenas um pequeno grupo foi informado da razão dessa ida. Umas centenas de estudantes deslocaram-se assim até lá. Haviam sido distribuídas tarefas pela Direcção-Geral. A mim, aos irmãos Luís e Pedro Lemos e a mais alguns, cabia-nos promover o arrombamento da Torre da Universidade para fazer tocar a "cabra".
Ao Xico Delgado coube um papel crucialde que então vos falei.. Chegados ao Pátio da Universidade era preciso dar o passo seguinte: ir para a sede da AAC, entrar arrombando a porta e reocupá-la. Mas alguém tinha que o propor. Foi essa a missão do Xico Delgado. Subindo alguns degraus da escada que desce da Via Latina para a Porta Férrea, perante algumas centenas de estudantes, em breves palavras, incisivas e cortantes, como a ocasião exigia, apelou a que regressássemos à sede da AAC. Assim aconteceu. Era perto. A polícia não podia chegar antes de nós. Não chegou. Entrou-se pela Filantrópica. Menos de uma hora depois o Palácio dos Grilos estava completamente cercado pela polícia de choque.
II- A isto, de que já vos falei, acrescento hoje uns detalhes de que me lembrei. Um episódio talvez não muito glorioso, mas que a esta distância podemos encarar com bonomia e com o tradicional e saudável humor coimbrão.
Correspondendo ao apelo do Xico Delgado, as centenas de estudantes que iam engrossando deslocaram-se para a sede da AAC nos Grilos. Estando a sede fechada, entraram através da Filantrópica que tinha ligação à AAC. Mas um pequeno grupo de estudantes ficou no Pátio da Universidade para arrombar a porta da Torre e ir fazer tocar a "cabra", repetindo assim o que havia sido feito, quando alguns dias antes tinha ocorrido o primeiro cerco policial da AAC numa manhã agitada com aulas a decorrer.
Feita uma primeira tentativa, verificou-se que desta vez a porta estava escorada por fortes suportes consolidados; o que tornava difícil, ou mesmo impossível, o arrombamento pelos meios correntes. Acontece que estavam a decorrer obras numa qualquer dependência próxima da Universidade, havendo ali perto materiais de construção e uma grande trave de alguns metros de comprimento e uma envergadura apreciável. Talvez estimulado pela memória dos filmes de “ índios e cow-boys” houve quem tivesse a ideia salvadora. E assim cerca de uma dezena dos estudantes presentes pegou na trave, tomou balanço, renunciou aos esperados “gritos selvagens” e arremeteu decididamente contra a porta da Torre. Estranhamente a porta resistiu. Dois grossos barrotes cruzados e bem escorados impediam o êxito. Mas se a porta não cedia, talvez não resistisse inteira a novas investidas. E assim foi feito. Uma, duas, três, quatro vezes a malta tomou balanço e arremeteu. Os barrotes cruzados não cederam, mas a porta ficou desfeita e através dos barrotes cruzados conseguiu passar-se.
Na minha memória, ficou sedimentada uma lembrança difusa do papel liderante que teve nesse “assalto” o Zé Baptista, então estagiário de Medicina, com o qual viria a partilhar , comigo e com outros, pouco depois durante alguns dias uma cela no reduto norte do Forte de Caxias.
Entretanto, ao procuraram-se outras vias de acesso à Torre, tinha-se tentado usar um postigo situado perto da Via Latina, mas que permitia a passagem através dele de alguém elegante. Estando eu no fundo da escada e vendo na Via Latina um estudante com ar de quem estava ali para o que fosse preciso, instei-o a rebentar com o postigo para se poder passar através dele. Num ápice, foi o que aconteceu. A minha “ordem” foi obedecida. Mas as autoridades tinham-se precavido: tinham tapado o postigo com tijolos. Só restava o arrombamento. Anos mais tarde , em 1968, à beira de uma nova crise, numa reunião da Comissão Pró-Eleições da qual ambos fazíamos parte, o Carlos Baptista perguntou-me se eu sabiaa quem tinha mandado rebentar com o postigo naquele dia de Abril de 1962. Tinha sido a ele, então ainda estudante do Liceu. Criatividade da história, teimosia na resistência, acaso.
Recordo: dois resistentes, um Zé e um Carlos, unidos por um mesmo apelido [Baptista], talvez nem se conhecendo um ao outro, um estudante do Liceu e um estagiário de Medicina, envolvidos numa mesma revolta. Um pequeno passo mais no caminho para uma respiração livre a que chegaríamos uma dúzia de anos depois.
Voltemos ao pátio da Universidade. Não me recordo de quem subiu à torre para ir tocar a “cabra”. Esperámos ansiosos para ouvir o desejado e simbólico som . Porém, com espanto e desilusão apenas ouvimos tocar desregradamente o modesto som das horas no relógio da torre. Ao estudante que subiu à torre escapara um pequeno detalhe: como se fazia tocar a “cabra”. E assim se frustrou esse rebate de aviso de que algo se passava na Academia.
Saímos rapidamente pela porta férrea, antes que a polícia colmatasse a pequena omissão de a não ter guardado. Cortámos à direita, pelo caminho que separa os Gerais da Faculdade de Letras, como fora programado. Desse modo chegava-se às traseiras do Palácio dos Grilos ( então sede da AAC). Aí uma escada amovível permitiu-nos descer até ao pátio onde decorriam normalmente as Assembleias Magnas. Pouco depois a polícia também aí chegou. Estávamos cercados.
Era o fim de tarde. Passaram-se horas. Nas ruas os estudantes manifestaram-se solidários. A polícia carregou, violente-Cerca das quatro da manhã as polícias lideradas pela PIDE invadiram a sede da AAC. Depois, foi o já contei: quartel da GNR na Av. Dias da Silva, de madrugada envio de uma parte dos estudantes aprisionados para Caxias.
terça-feira, 30 de março de 2021
Terceira evocação da crise académica de 1962 na sua dimensão coimbrã
I. Na sequência das evocações recentes da dimensão coimbrã da crise académica de 1962, vou hoje transcrever um novo Anexo que também incluí no meu livro, publicado em 2016, sobre a crise de Coimbra de 1969 , “Abril antes de Abril”. Trata-se de uma viagem atribulada e insólita entre Coimbra e Lisboa feita no ápice da crise.
II- [Anexo no 5 ] Uma viagem atribulada durante a crise académica de 1962
Nas celebrações do cinquentenário da Crise Académica de 1962, a respetiva Comissão Organizadora pediu-me um testemunho que evocasse um facto então ocorrido com algum significado, que eu tivesse testemunhado.
O testemunho evocativo que se segue é precedido por um extrato de um outro testemunho de um outro estudante e participante nos acontecimentos. O meu texto faz-lhe referência e sem ele não e completamente compreensível. A minha remissão para o texto de Cabral Pinto resulta do facto de os dois textos irem ser difundidos em conjunto.
Foi o Jacinto Rodrigues quem me pediu um testemunho relacionado com a crise de 1962, tendo-me enviado o texto do Cabral Pinto como referência e ilustração do tipo de depoimento que se pretendia. Daí, o facto de eu me referir a esse texto quando escrevi o meu. Aliás, sem essa evocação talvez eu nem me lembrasse do episódio
O testemunho do Cabral Pinto fala sobre o início da viagem de comboio , desde Coimbra até á Amadora. O conjunto dos estudantes apanhados e cercados pela polícia na Amadora foi recambiado à força para Coimbra, com as exceções de mim e do César Oliveira, depositados no Rossio em Lisboa.
Eis o parte do texto do Cabral Pinto a que o meu faz referência e a que dá sequência.:
“A concentração comemorativa seria na cidade universitária de Lisboa. Pensámos ir apanhar boleia para a ponte de Santa Clara. Como éramos irremediavelmente preguiçosos, o jacinto e eu chegámos tarde: a fila dos utilizadores deste modo de viajar era interminável. Chegámos à conclusão que o melhor seria optar pelo comboio. Soubemos que estava um para partir com malta do coral das Letras. Fomos nesse. Porém, a polícia de todo o país (designadamente Porto e Coimbra) estava a evitar a deslocação de estudantes em direção a Lisboa. Houve, em consequência, ordem para deter o dito comboio na Amadora. Os passageiros comuns estranharam: o comboio não costumava parar naquela estação. A demora foi longa. Sem suspeitar de nada, ficámos tranquilos.
A páginas tantas, entraram na carruagem uns javardos carregados de material de guerra. Pela primeira vez vi uma metralhadora apontada ao meu peito. Toda a gente que trajava capa e batina foi obrigada a abandonar o comboio. A estação estava cercada de polícia de choque. Fizemos uma avaliação para a hipótese de fuga. Impossível. Queríamos aproveitar a situação para fazer escândalo junto da população perplexa que se encontrava na estação ou nos arredores. Ensaiámos então a cena da ocupação da linha. A adesão foi pequena porque a situação em que nos encontrávamos não tinha sido prevista. Paciência. Para provocação, o Jacinto ainda se lembrou de perguntar a um dos mastodontes fardados se o armamento era a sério ou era só para assustar a malta. A resposta foi muda, mas fez calafrios. Entretanto, chegaram à estação carrinhas da GNR. Fomos empurrados para as ditas. Tínhamos já formado um grupo que entrou para a mesma carrinha. Juntámo-nos atrás e iniciámos um animado festival de canções revolucionárias ("canta, camarada, canta", etc.). Eu berrava, não cantava (cantar não era manifestamente o meu forte). O que importava era chatear os bófias.”
Foi depois de ter lido este depoimento que escrevi o meu. Ei-lo:
“A crise de 62 foi bastante movimentada para mim: fui uns dias para Caxias, fui expulso da Universidade de Coimbra. Também ia no comboio intercetado na Amadora. Um comboio da pouco frequentada Linha do Oeste, em vez da previsível linha do Norte. Preventivamente, eu e o César Oliveira, fomos antes a casa tirar a capa e batina, pensando que em Lisboa ela seria um elemento ostensivo de identificação que não trazia qualquer vantagem.
Até à Amadora, a viagem já foi narrada pelo Cabral Pinto. Quando a polícia de choque entrou na carruagem, deu ordem de saída a quem fosse estudante de Coimbra, dado que na nossa carruagem não iam só estudantes de Coimbra, embora eles fossem a maioria. Nós, que estávamos à "futrica", ainda pensámos em ficar onde estávamos, fingindo não ter a nada a ver com o assunto. Mas logo desistimos, pensando que era pior ficar isolados, correndo o risco de ser descobertos, do que estarmos junto da malta. E saímos como todos.
No largo que existia em frente da Estação, as dezenas de estudantes de Coimbra ali intercetados foram cercados por um contingente de polícia de choque mais numeroso do que o próprio grupo de estudantes. E ali ficámos à espera que chegassem as carrinhas da polícia que nos haviam de recambiar para Coimbra.
Foi então que duas colegas , que estavam junto de mim e do César Oliveira, que aliás nem se conheciam uma á outra, desabafaram contristadas que elas nem tinham nada a ver com o Dia do Estudante e que iam para Lisboa por motivos particulares, que nada tinham nem de gloriosos nem de subversivo. Logo ali o César as instigou a reclamarem, a exigirem reparação pelo abuso de autoridade e a resolução do contratempo que lhes haviam causado. Os mais próximos secundaram logo as colegas, que estavam visivelmente atrapalhadas. O César falou por elas, interpelando o polícia mais próximo, para dizer que havia ali quem não fosse para o Dia do Estudante e que não era aceitável que os tivessem arrancado sem razão do comboio, tanto mais que tinham família à espera. O polícia de choque ainda perguntou porque não tinham dito isso no comboio, mas foi-lhe respondido que tinham mandado sair todos os estudantes de Coimbra sem qualquer outra menção, pelo que tinham saído todos.
Com algum espanto, vimos o improvável a acontecer. O polícia deu-nos ouvidos e dirigiu-se a um superior. Daí a alguns minutos voltou, dizendo que ia ser conseguido transporte para Lisboa, a quem tinha saído do comboio por engano, dado não ir para o Dia do Estudante. Não era cómodo, mas era o que se podia arranjar. Até então, na nossa cabeça, quem estava nessa situação eram as duas estudantes, como nós sem capa e batina . Mas quando se tratou de irmos para o transporte, uma carrinha aberta com bancos de madeira, o polícia que se dirigiu àquela parte do grupo, perguntou quem é que tinha saído por engano. Como ali naquela zona eu e o César estávamos sem capa e batina, num gesto espontâneo, associámo-nos de imediato, com o máximo de naturalidade, às duas colegas que realmente tinham saído do comboio por engano. E lá fomos os quatro numa carrinha aberta da PSP, rumo a Lisboa. Assim, ao mesmo tempo que, como contou o Cabral Pinto, várias carrinhas da polícia rumavam a Coimbra, nós os quatro éramos transportados para Lisboa; e ás 10 e meia da noite fomos deixados sem sobressaltos no Rossio.
Dormi em casa dumas primas do César e ao outro dia de manhã lá fomos para a Cidade Universitária, onde desde logo vimos a polícia de choque "limpar" de estudantes a Pró-Associação de Medicina que funcionava no Hospital de Santa Maria.”
segunda-feira, 29 de março de 2021
Segunda evocação da Crise Académica de 1962 na sua dimensão coimbrã
Segunda evocação da Crise Académica de 1962 na sua dimensão coimbrã
I.. Na sequência da evocação, que aqui fiz ontem, da dimensão coimbrã da crise académica de 1962, vou hoje transcrever um novo Anexo que também incluí no meu livro, publicado em 2016, sobre a crise de Coimbra de 1969 , “Abril antes de Abril”.
II. Anexo no 4 - Estudantes presos em Coimbra pela PIDE na criseacadémica de 1962.
1. A divulgação da lista dos estudantes presos pela PIDE em Coimbra no decorrer da crise académica de 1962 justifica a transcrição como enquadramento de um pequeno comentário que fiz no meu blog, o qual como podem constatar se relaciona diretamente com a sua génese.
De facto, em Janeiro de 2012, soube da morte do Xico Delgado, tendo-lhe prestado homenagem no meu blog, evocando especialmente a nossa participação na aventura poética e cívica dos “Poemas Livres”. Depois acrescentei-lhe uma pequena narrativa que mostra a verdadeira razão pela qual, fora da Direção- Geral da AAC, ele foi o estudante de Coimbra mais duramente sancionado (dois anos de expulsão de todas as escolas nacionais). Eis o texto que então escrevi:
“Nesta evocação quero recordar um episódio ocorrido, em Coimbra, durante os dias escaldantes da crise de 1962. Os estudantes tinham aceitado sair da sede da AAC, cercada pela polícia de choque, para corresponderem a um esforço de mediação de um grupo de professores da UC, que se dispuseram a promover uma saída negociada para o conflito que opunha os estudantes e as autoridades universitárias. Todavia, o máximo que esse grupo conseguiu obter destas últimas não foi considerado satisfatório pela Assembleia Magna, reunida no Campo de Santa Cruz , uma vez que estava encerrada a sede da AAC no Palácio dos Grilos. Por isso, a proposta veiculada pelos professores foi rejeitada.
O corolário natural dessa rejeição era o regresso à sede da AAC, donde só tínhamos saído para permitir essa negociação. Falhada a negociação, haveria que voltar ao Palácio dos Grilos. Mas se tal fosse votado expressamente no Campo de Santa Cruz, quando chegássemos ao Palácio dos Grilos já lá estaria a polícia e não conseguiríamos entrar. Por isso, a decisão não foi formalmente tomada na AM, tendo apenas sido passada a palavra de que iríamos até ao Pátio da Universidade.
Apenas alguns foram informados da razão dessa ida. Umas centenas de estudantes deslocaram-se assim até lá. Haviam sido distribuídas tarefas pela Direcção-Geral. A mim , aos irmãos Luís e Pedro Lemos e a mais alguns, cabia-nos promover o arrombamento da Torre da Universidade para fazer tocar a "cabra".[ Prometo que, além dos três textos prometidos, escreverei depois um quarto em que contarei em detalhe o que aconteceu então no Pátio da Universidade. Algo, que ao que julgo saber, nunca foi divulgado.] Ao Xico Delgado coube um papel crucial. Chegados ao Pátio da Universidade era preciso dar o passo seguinte: ir para a sede da AAC, entrar arrombando a porta e reocupá-la. Mas alguém tinha que o propor. Foi essa a missão do Xico Delgado. Subindo alguns degraus da escada que desce da Via Latina para a Porta Férrea, perante algumas centenas de estudantes, em breves palavras, incisivas e cortantes, como a ocasião exigia, apelou a que regressássemos à sede da AAC. Assim aconteceu. Era perto. A polícia não podia chegar antes de nós. Não chegou. Entrou-se pela Filantrópica. Menos de uma hora depois o Palácio dos Grilos estava completamente cercado pela polícia de choque.
À noite, os estudantes manifestaram-se na rua em solidariedade com os colegas cercados. Foram dispersos brutalmente, pela polícia. Às quatro da manhã o Palácio dos Grilos foi assaltado pela PSP e pela PIDE. Todos os que estávamos lá dentro fomos transportados em carrinhas para o quartel da GNR na Av. Dias da Silva. Aí a PIDE identificou-nos um por um. Selecionou trinta e nove homens e quatro mulheres. As quatro mulheres ficaram em Coimbra, presas na sede da PIDE. Os trinta e nove homens foram de imediato enviados para o Forte de Caxias. Viagem de chumbo, imensa e fria; madrugada que ia abrindo dentro de si uma noite de incerteza. O que nos ia acontecer? Por quanto tempo iríamos estar presos? O Xico Delgado fez essa viagem; e eu também. Foram apenas alguns dias noreduto norte do Forte de Caxias, uma das prisões políticas existentes,mas naquela soturna manhã de maio, nós ainda não sabíamos se iriam ser dias, meses ou anos.”
2.Viria a juntar-se-nos já em Caxias o Presidente da Assembleia Magna da AAC, o angolano estudante de Medicina, Mac Mahon. Foi no dia 18 de maio de 1962. Os que estiveram menos tempo saíram oito dias depois. Tal como outros, eu saí ao fim de onze dias. Os restantes foram saindo aos poucos. Os últimos passaram em Caxias mais de um mês.
Um amigo e companheiro desses velhos tempos ─ Marcelo Correia Ribeiro ─ fez-me recentemente chegar às mãos o elenco completo dos estudantes presos nas circunstâncias acima mencionadas. Cada nome vinha acompanhado das referências que ele achou relevantes. A uma parte delas reproduzo-as, tendo apenas acrescentado duas ou três alterações de pormenor.
As quatro estudantes presas ficaram na sede da PIDE em Coimbra na Rua Antero de Quental, Foram elas:
Isabel Duarte Reis (médica estagiária), Irene Namorado (Ciências), JuditeCortesão (Letras), Margarida Lucas (Direito; direção-geral da AAC).
Os quarenta estudantes presos foram enviados em carrinhas da polícia para o reduto norte do Forte de Caxias. Foram eles:
Abílio Vieira (Direito; presidente da seção de futebol da AAC), Alberto Mendonça Neves [Alá] ( Medicina; Rep. do Prá-kystão), Alberto Sousa Pinguinhas (Medicina; CITAC),Alfredo Fernandes Martins (estudante liceal; Pró-associação), Alfredo Soveral Martins (Direito; Rep. dos Corsários, delegado de curso),António Bernardes (Letras; República do Rás-teparta), António Ferreira Guedes (Direito; TEUC; “Poemas Livres”), António Jacinto Rodrigues [Yoga] (Letras- Universidade de Lisboa), António Lopes Dias (Direito; CITAC; “Poemas Livres”), António ManuelLecquoc ( Medicina), António Mota Prego ( Direito), António Teles Grilo (Direito; Rep. do Bota-abaixo; Orfeon), Carlos Ferreira Bento (Ciências; Rep. do Bota-abaixo), Carlos Mac-Mahon de V. Pereira (Medicina; Presidente da Assembleia Magna), Eduardo Casais ( Letras), Francisco Delgado (Letras; CITAC; “Poemas Livres”), Jaime Dória Cortezão (Direito), João Gargaté (Medicina), João Quintela (Letras; CITAC), Jorge Manuel Bretão (Direito; Rep. dos Corsários; Orfeon), Jorge Ormonde de Aguiar (Medicina; Rep. dos Corsários; Orfeon), José Augusto Rocha (Direito; direção-geral da AAC), José Ferraz Alçada ( Medicina; Rep. dos Corsários; Orfeon), José Martins Baptista (Medicina; CITAC), José Monteiro (Ciências; Rep.do Prá-kystão), Luís Gonzaga Bagulho (Medicina; Cine- Clube), Luís Nogueira de Lemos (Medicina; “Via Latina”), Manuel Balonas [Manecas] (Medicina; Rep. dos Myl-ionários; delegado de curso),Manuel Cassiano Póvoas (Direito; Orfeon), Manuel Lima ( médico estagiário), Marcelo Correia Ribeiro (Direito; CITAC; secção pedagógica), Mário Silva (Ciências; Círculo de Artes Plásticas), Octávio Ribeiro da Cunha (estudante liceal; Pró-associação), Pedro Mendes de Abreu (estudante liceal; Pró-associação), Pedro Nogueira de Lemos (Medicina; seção de atletismo), Raul Branco (Ciências; CITAC), Raul Sobral (Ciências), Rui Fernando de Moura ( Direito), Rui Namorado (Direito; “Via Latina”; “Poemas Livres”), Uriel de Oliveira (Direito; secção de natação).