sexta-feira, 26 de outubro de 2007
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
CHECOSLOVÁQUIA: 20 de Agosto de 1968
K. au poteau!
Choro por ti, Checoslováquia,
caminhos de assombros,
encruzilhada de medos
terra calcada por todos os ditadores do Erro,
chave da Europa à mercê dos ladrões!
Que culpa terás de ser mais evoluída?!
de teres a capitação de 1200 dólares,
e, a URSS, a de 980 apenas?...
Choro por ti, Checoslováquia,
irmã gémea e lutuosa do Vietname, —
os dois pinhais da Azambuja!
Meu amigo Zdenek,
que traduziste o Camões e o Eça,
e vieste ao meu encontro numa rua de Aveiro,
só porque tinhas, lá longe,
um mau retrato meu! —
Que posso fazer pelos teus?!
Choro por ti, Checoslováquia,
vítima da cupidez nazista
e dos seus post-justiceiros, — os filisteus estalineptos!
Se tiver de morrer «errado»,
morrerei como tu, Checoslováquia,
socialista socialienado!...
Foram cem os erros (já) do socialismo!?
Fossem cem mil — e socialistas seríamos!
Choro por ti, Checoslováquia:
manda que o faça o futuro!,
exige que o reprima o presente,
— ironia trágica e pútrida!
Escarro vivo
de cintilantes sóis,
noite gelada
de rumorosa manhã…
Fátuo ser!
Poteau...
K!
Mário Sacramento, 1968
1968: «PRIMAVERA DE PRAGA» —Quando a Checoslováquia pretendeu enveredar por um socialismo de rosto humano, atento às liberdades individuais, a URSS e os tanques do Pacto de Varsóvia responderam com a invasão de 20 de Agosto de 1968. Mário Sacramento deixou a sua amargura nas páginas do seu Diário, que viria a ser publicado em 1975, exprobrado desses escritos. As páginas «censuradas», em que se inclui o poema K. au poteau! foram publicados em 1990 no semanário O Jornal, por vontade expressa da viúva de Mário Sacramento [Sacramento, Mário – K. au poteau!O Jornal (5 Jan.1990) p. 31].
Interpretação do título do poema:
Коммунизм [Kommuniem «comunismo»]
Au poteau! À morte! (grito de ameaça)
Poteau du condamné; poteau d'exécution: poste a que se amarra alguém que vai ser fuzilado.
No poema corresponde ao sentido figurado da expressão mettre [ou exposer] quelqu'un au poteau, isto é, expor alguém ao desprezo público, à indignação pública.
segunda-feira, 9 de julho de 2007
ANDOEIROS: o barro das marinhas de Aveiro
ANDOEIRO (microtopónimo da freguesia de S. Bernardo, concelho de Aveiro), ANDOEIROS (microtopónimos nas freguesias de Esgueira e Vera Cruz do concelho de Aveiro), AGRA DOS ANDOEIROS (na freguesia de Esgueira, concelho de Aveiro), ENCOSTA DOS ANDOEIROS (na freguesia de Esgueira, concelho de Aveiro) RUA DOS ANDOEIROS (no lugar das Agras, freguesia da Vera Cruz, concelho de Aveiro).
«Andoeiro», de «ândoa» + -eiro, é o sítio onde existe a «ândoa», apelativo aveirense para uma espécie de barro azulado que se extraía junto à Ria e servia para aplicar no fundo dos cristalizadores das marinhas. Os dicionários registam a forma «andoa» que não aparece em Aveiro, sendo certo que esta fala é uma loquela da salicultura aveirense, não aflorando em nenhuma outra região do País, nem nas restantes línguas românicas.
A voz «andoa», que os nossos dicionaristas consideram de «origem obscura», poderá ser uma forma regressiva do verbo «andoar», e não a origem deste verbo, geralmente explicado como uma formação de «andoa + -ar».
A nossa conjectura assenta no facto de fazer pouco sentido a permanência de uma voz para «barro», circunscrita à zona das marinhas de Aveiro, sem que lhe encontremos uma possível etimologia, mesmo a nível de substratos.
Em nossa opinião estamos perante uma metonímia, em que um verbo, designando uma determinada operação da safra salineira, passaria a designar o material utilizado, através de um novo substantivo, obtido desse mesmo verbo por derivação regressiva.
O dicionarizado «andoa», sendo paroxítono, exigiria a forma *andona, o que a fala proparoxítona aveirense dispensa, pelo que o nosso ponto de partida, para tentar encontrar uma possível origem para esta fala, será a voz «ândoa», como se pronuncia localmente (Dias, 1996: 24).
E, para chegarmos ao nosso objectivo, nada melhor que dar a palavra a um profundo conhecedor das saliculturas nacional, internacional e aveirense em particular, para que a voz do especialista** nos explique o que seria esse «andoar»:
A operação denominada andoar, consiste em estender uma camada fina de andoa por sobre o fundo dos cristalisadores, um pouco gretado pela retracção do terreno, apezar das repetidas circiadellas que se lhe deram. Para se andoar uma salina pulverisa-se primeiro o barro sobre o pavimento duro das eiras, e leva-se em seguida para a parte superior dos meios de baixo, onde os marnotos fazem com elle caldeirinhas, casulas, que enchem com a água dos meios de cima. N’esta água dilue-se a própria andoa até ficar em massa muito rara. Chegada a este ponto dá-se com ella uma barrela aos cristalizadores; quer dizer, estende-se pela sua superfície em camada muito fina. Tal é a primeira operação que se pratica no dia em que se deita a marinha (Alcoforado, 1877: 64; mantivemos a grafia do original).Enriquecidos pelas explicações de Maia Alcoforado, estamos agora melhor preparados, para procurar uma resposta credível, que ilumine a obscuridade dos nossos dicionários.
O latim popular carregou-se de neologismos que, em muitos casos «são formações derivadas com auxílio de prefixos e sufixos», neste último caso com recurso privilegiado aos sufixos diminutivos. Isto mesmo acontece em relação aos verbos, frequentemente alargados por meio dos sufixos -ulare, -icare, -itare e -escere. Foram fenómenos deste tipo os responsáveis, por exemplo, da substituição do latim clássico miscere «misturar» pelo latim popular misculare (Vasconcelos, 1977: 245), precisamente o tipo de formação que irá explicar o verbo «andoar» da loquela marnoteira, cuja grafia correcta, como veremos, deveria ser «anduar».
Quanto a nós, «andoar» provirá do latim *pandulare (<pandere «estender»), depois da aférese do p- inicial, que podia resultar do cruzamento de *panduar com «andar», e da queda do -l- intervocálico. Teríamos, assim, *(p)andu(l)ar(e) > «anduar», com a grafia correcta, donde, por derivação regressiva, teria saído a fala «ândua» e não «ândoa», referida ao material usado pelos marnotos na operação de «anduar» [estender a andar, andar a estender], acima descrita por Alcoforado. A aférese do p- também podia atribuir-se ao substrato celta, mas não podemos esquecer que o lusitano é uma das poucas línguas célticas, ou pré-célticas, a preservar o p- inicial (Schmitd, 1985: 338).
Na Figueira da Foz esta operação é designada pelo verbo «barrar», de «barro» + -ar (Nogueira, 1935: 83).
ALCOFORADO, M[anuel] da Maia (1877-1878) – A indústria do sal. Museu Technologico. Lisboa: Lallement Frères Typ. N.o 2 (Jul.1877) a N.o 7 (Jan.1878), p. 29-124.
DIAS, Diamantino (1996) – Glossário: Designações relacionadas com as marinhas de sal da Ria de Aveiro. Aveiro: Câmara Municipal. 97 p. ISBN 972-9137-24-2.
GEPB: ver Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
GRANDE ENCICLOPÉDIA Portuguesa e Brasileira. Lisboa-Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia, [1935-1960]. 40 vol.
NOGUEIRA, R. de Sá (1935) – Subsídios para o estudo da linguagem das salinas. Lisboa: [s.n.]. p. 75-144, [2], [8 ilust.]. Separata de «A Língua Portuguesa», vol. 4.
SCHMIDT, Karl Horst (1985) – A contribution to the identification of Lusitanian. In HOZ, Javier de, edit. – Actas del III Coloquio sobre lenguas y culturas paleohispanicas (Lisboa, 5-8 Noviembre 1980). Salamanca: Ediciones Universidad. p. 319-341.
VASCONCELOS, Carolina Michaëlis de (1977) – Lições de Filologia Portuguesa: segundo as prelecções feitas aos cursos de 1911/1912 e de 1912/1913, seguidas das lições práticas de português arcaico. Lisboa: Dinalivro, [1977]. 441 p.
** Manuel da Maia Alcoforado, o autor a que nos referimos, foi um brilhante aluno da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, que não ascendeu à cátedra por entretanto ter sido vítima de doença grave. Foi o fundador e autor da revista Museu Technologico, tendo falecido antes de poder terminar o programa que impusera a si próprio. A maior parte dos números publicados tratam da salicultura nacional e estrangeira, com especial aprofundamento da de Aveiro, onde tinha salinas, e da de outras regiões do País que expressamente visitou, mostrando o significado que para ele tinha a ciência (vd. GEPB, 15: 954-955, s.v. «MAIA ALCOFORADO, Manuel da»).
sexta-feira, 6 de julho de 2007
DOSSÃOS, LAÇÕES, DEZA, DOZÓN, PORTO DO SON [Porto Dozón]
DOSSÃOS (freguesia do concelho de Vila Verde, distrito de Braga); LAÇÕES (lugar da freguesia e concelho de Oliveira de Azeméis, distrito de Aveiro).
DEZA (comarca e rio da Galiza); DOZÓN (lugar da freguesia de Dozón, concelho de Dozón, província de Pontevedra; freguesia do concelho de Dozón; concelho da província de Pontevedra); PORTO DE SON (lugar da freguesia de Noal, concelho de Porto de Son, província da Corunha; concelho da província da Corunha).
Pede-me um leitor que interprete a origem do topónimo “Lações”, actualmente inserido na área urbana da cidade de Oliveira de Azeméis, no distrito de Aveiro. A pesquisa efectuada, e a sua ligação a “Dossãos”, permitem-me dar mais uma achega à postagem publicada por Calidónia no seu blogue, no passado dia 2 de Maio.
No Minho, identificando uma freguesia do concelho de Vila Verde, no distrito de Braga, temos o topónimo Dossãos que deveria ser Doçãos, se considerarmos as ocorrências registadas documentalmente: Dezaos em 1220 e 1258; Duçães em 1290; de Çãaes [por Doçãaes] em 1320; Daçaaes em 1371; Doçãaos em 1400 e 1424; Doçãos em 1528 (Costa, 1959: vol. 2, p. 180).
Na freguesia e concelho de Oliveira de Azeméis, no distrito de Aveiro, temos também um "Lações" que é uma evolução popular de Doçãos, correspondendo ao topónimo Dezanos que aparece citado num documento de 922 (LP-1, p. 120; DC25), entre Vila Chã e as vilas de Santiago de Riba-Ul e Oliveira. A sequência textual facilita a identificação dos topónimos, que se integravam no território de Abranca (actual Cristelo, na freguesia da Branca?):
«De Abranca alias ecclesias prenominatas Sancto Petro de Villa Plana cum suos dextros integros et suas adiectiones. Et villa de Dezanos per suos terminos antiquos et sua ecclesia vocabulo Sancti Michaelis et suos dextros integros. Et in Ripa de Ul ecclesia Sancti Iacobi et suos dextros integros et villa Olivaria ecclesia vocabulo Sancti Michaelis cum suos dextros integros et suas adiectiones.»
Tradução: «[Do território] de Branca [Cristelo, freguesia da Branca] outras igrejas chamadas São Pedro de Vila Chã [Vila Chã de S. Roque, freguesia que ainda hoje tem S. Pedro por orago], com os seus destros [ou passais, correspondendo a parcelas de terreno cultivadas pertencentes à paróquia] íntegros [livres de quaisquer encargos] e as suas pertenças. E a vila de Dezanos [actual “Lações”], pelos seus termos antigos e a sua igreja chamada S. Miguel, e seus destros íntegros. E em Riba de Ul a igreja de S. Tiago [actual Santiago de Riba-Ul] e seus destros íntegros e na vila [de] Oliveira [de Azeméis] a igreja chamada de S. Miguel [continua a ser o orago desta freguesia] com os seus destros íntegros e as suas pertenças.»
Com alguma lógica, A. de Almeida Fernandes (1999: 245, s.v. “Doções”) considera que estes topónimos têm por base dezanos, o gentílico do território medieval galego de Deza, actual comarca do mesmo nome, apontada como origem dos migrantes fundadores das duas povoações portuguesas, uma no território portucalense (“Dossãos”) e a outra na terra de Santa Maria (Dezanos, actual “Lações”).
Curiosamente, a evolução d-> l-, detectada na passagem de Dezanos a “Lações, é um fenómeno que encontramos episodicamente na evolução do latim arcaico para o latim clássico, como nos casos de dacruma> lacrima “lágrima”, dautia> lautia “presentes oferecidos aos embaixadores”, dingua> lingua “língua”. Também se verificam alguns casos em que -d- e -l- alternam em formas com uma origem comum, como no latim odor “odor” e olor “olor” (de oleo), udus “húmido” e uligo “humidade”, sedeo “eu estou sentado” e solium “assento, trono” (por alternância vocálica) (Niedermann, 1945: 119-120).
A ligação da terra portucalense ao território de Deza comprova-se por documentos do século X como, por exemplo, os números 66 e 76, respectivamente dos anos 952 e 959, dos Portugaliae Monumenta Historica: Diplomata et Chartae, envolvendo uma permuta de propriedades entre Bermudo Afonso e sua tia Mumadona Dias, a fundadora do mosteiro de Guimarães. Esta senhora tinha propriedades «que sunt territorio galatie in Valle Deza»(doc. 66, ano 952), bens identificados (doc. 76, ano 959) como «villa de Portus in Dezza» (Herculano, 1867: 38 e 46), possivelmente o actual Porto de Carrio, na freguesia de Losón, concelho de Lalín, comarca de Deza.
Quanto ao topónimo Deza, corónimo de um território medieval, actual comarca galega, mas também um hidrotopónimo que identifica um rio da mesma região, já o encontramos em documentos suevos do século VI, como sejam as actas do concílio de Lugo de 569, em que aparece o Comitatus Deza, e do concílio de Braga de 572, com uma descrição pormenorizada dos termos do Comitatus Decensis (Risco, 1796: 343 e 347), uma clara manifestação da organização administrativa dos germanos. É por isso de rejeitar a opinião expressa na EGU (vol. 7, p. 264) de que a comarca e o próprio rio teriam recebido o nome dos senhores de Deza; o contrário é que é historicamente válido.
A interpretação que encontramos para a voz Deza faz recuar o topónimo aos primeiros indo-europeus que teriam chegado ao local, aí estabelecendo o seu território. A ligação indo-europeia não a encontrámos em nenhuma das actuais falas célticas, mas sim na vetusta língua sânscrita em que a voz deśá significava «localidade, terra de naturalidade, lugar; região, província, país, nação».
Resta-nos o problema dos topónimos galegos Dozón e Porto do Son (uma infeliz tradução de Dozón) [Porto de Doçon> Porto de Oçon (queda do -d- intervocálico)> Porto d'Oçon (resolução da crase)> Porto Doçon]. No sânscrito encontramos as falas dāśa ou dāsa, com o significado de “pescador, barqueiro”, que poderiam responder ao topónimo costeiro, mas que não se ajustam às condições geográficas de Dozón. A única probabilidade que nos parece razoável, tendo em conta os elementos recolhidos, centra-se no possível nome do possuidor, que poderia ser um Donazano, antropónimo que encontrámos num documento datado de 1001 (LP-3: 179) e que, em galaico-português, evoluiria perdendo os dois -n- intervocálicos.
COSTA, Avelino Jesus da (1959) ─ O Bispo D. Pedro e a Organixação da Diocese de Braga. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade. 2 vol.
COSTA, Avelino de Jesus da; VENTURA, Leontina; VELOSO, M. Teresa (eds.) (1977-1979) ─ Livro Preto da Sé de Coimbra. Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra. 3 vol. Citados por LP-1, LP-2 e LP-3.
EGU – Enciclopedia Galega Universal. Ed. de Bieito Ledo Cabido. Vigo: Ir Indo Edicións, 1999-2006. 16 vol. ISBN 84-7680-288-9.
FERNANDES, A. de Almeida (1999) — Toponímia Portuguesa: Exame a um dicionário. Arouca: Associação para a Defesa da Cultura Arouquense. 576 p. ISBN 972-9474-13-3.
HERCULANO, Alexandre (ed.) ─ Portugaliae Monumenta Historica: a saeculo octavo post christum usque ad quintumdecimum. Diplomata et Chartae. Lisboa: Academia Scientiarum, 1867-1873. 564 p. Citado por DC + número do documento.
LIVRO PRETO da Sé de Coimbra. (1977-1979) Ed. de COSTA, Avelino de Jesus da; VENTURA, Leontina; VELOSO, M. Teresa. Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra. 3 vol. Citados como LP-1, LP-2 e LP-3.
NIEDERMANN, Max (1945) ─ Précis de phonétique historique du latin. Nouveau tirage. Paris: Librairie C. Klincksieck. 279 p.
RISCO, Manuel (1796) ─ España Sagrada: Tomo XL. Antiguedades de la ciudad y S.ta Iglesia de Lugo [...]. Madrid: en la oficina de la viuda é hijo de Marin, 1796. [12], 432 p.
quarta-feira, 13 de junho de 2007
Migrantes, emigrantes, imigrantes
Como os Galegos, também os Portugueses são um povo de emigração que, como tal, sente ou já sentiu na carne a exploração denunciada nestes versos de Rosalía Castro, a grande senhora das letras galegas. Bom seria que os portugueses rejeitassem essa exploração, quando os oprimidos são os imigrantes que nos escolheram na procura de melhores condições de vida, muitos dos quais são vítimas de uma feroz gatunagem, por parte de gentalha sem escrúpulos.
Castellanos de Castilla,
tratade ben ós gallegos;
cando van, van como rosas;
cando vén, vén como negros.
─ Cando foi iba sorrindo,
vando veu, viña morrendo
a luciña dos meus ollos,
o amantiño do meu peito.
Aquel máis que neve branco,
aquel de doçuras cheyo,
aquel por quen eu vivía
e sin quen vivir non quero.
Foi a Castilla por pan,
e saramagos lle deron;
déronlle fel por bebida,
peniñas por alimento.
Déronlle, en fin, canto amargo
ten a vida no seu seo...
¡Castellanos, castellanos,
tendes coraçón de ferro!
¡Ay!, no meu corazonciño
xa non pode haber contento,
que está de dolor ferido,
que está de loito cuberto.
Morreu aquel que eu quería
e para min n-hai consuelo:
solo hai para min Castilla,
a mala lei que che teño.
Permita Dios, castellanos,
castellanos que aborreço,
que antes os gallegos morran
que ir a pedirvos sustento.
Pois tan mal coraçón tendes,
secos fillos do deserto,
que si amargo pan vos ganan,
dádesllo envolto en veneno.
Aló van, malpocadiños,
todos de esperanzas cheyos,
e volven, ¡ay!, sin ventura,
con un caudal de despreços.
Van probes e tornan probes,
van sans e tornan enfermos,
que anque eles son como rosas,
tratádelos como negros.
¡Castellanos de Castilla,
tendes coraçón de aceiro,
alma como as penas dura,
e sin entrañas o peito!
En trós de palla sentados,
sin fundamentos, soberbos,
pensás que os nosos filliños
para serviros naceron.
E nunca tan torpe idea,
tan criminal pensamento
coupo en máis fátuas cabezas
ni en máis fátuos sentimentos.
Que Castilla e castellanos,
todos nun montón a eito,
non valen o que unha herbiña
destes nosos campos frescos.
Solo peçoñosas charcas
detidas no ardente suelo,
tés, Castilla, que humedezan
esos teus labios sedentos.
Que o mar deixoute olvidada
e lonxe de ti correron
as brandas auguas que traen
de prantas cen semilleiros.
Nin arbres que che den sombra,
nin sombra que preste alento...
Llanura e sempre llanura,
deserto e sempre deserto...
Esto che tocou, coitada,
por herencia no universo,
¡miserable fanfarrona!...
triste herencia foi por certo.
En verdad non hai, Castilla,
nada como ti tan feyo,
que inda mellor que Castilla
valera decir inferno.
¿Por qué aló foches, meu ben?
¡Nunca tal houberas feito!
¡Trocar campiños frolidos
por tristes campos sin rego!
¡Trocar tan craras fontiñas,
rios tan murmuradeiros
por seco polvo que nunca
mollan as bágoas do ceo!
Mais, ¡ay!, de onde a min te foches
sin dór do meu sentimento,
y aló a vida che quitaron,
aló a mortiña che deron.
Morreches, meu quiridiño,
e para min n-hay consuelo,
que onde antes te vía, agora
xa solo unha tomba vexo.
Triste como a mesma noite,
farto de dolor o peito,
pídolle a Dios que me mate,
porque xa vivir non quero.
Mais en tanto non me mata,
castellanos que aborreço,
hei, para vergonza vosa,
heivos de cantar xemendo:
¡Castellanos de Castilla,
tratade ben ós gallegos;
cando van, van como rosas;
cando vén, vén como negros!.
Rosalía Castro, 1863 (in Cantares Gallegos)
postado
sexta-feira, 1 de junho de 2007
AVEIRO - IMAGENS DE UM SÉCULO
1 JUNHO | 6.a FEIRA | 21H30
na BIBLIOTECA MUNICIPAL DE AVEIRO
Apresentação da obra por Jorge Seabra
AVEIRO - IMAGENS DE UM SÉCULO
Do espólio de coisas de Aveiro deixado por João Sarabando
Jorge Sarabando - organização, introdução e notas
144 pp. | 20x22 cm | ISBN: 978-989-626-166-6 | Fora de Colecção | PVP: 18.90 €
(Newsletter da editora, in http://www.campo-letras.pt/newsletter_aveiro.html)
terça-feira, 22 de maio de 2007
Aido e Eido: o mesmo étimo.
A evolução aditu-> "aido"> “eido” resultou da queda do -d- intervocálico e da sonorização -t-> -d-. Em português coexistem as formas “aido” e “eido”, o que não acontece em galego, onde apenas encontramos a segunda.
A permanência do ditongo /ai/, que no galego-português evolui para /ei/, poderá explicar-se por assentamentos moçárabes, cujos falares conservaram os ditongo /ai/ e /au/ (Lapesa, 1991: 176).
No concelho de Aveiro, é notável a propagação da voz “aido”, na microtoponímia e como apelativo, designando uma “pequena propriedade junto à casa”, tanto mais que nunca aqui encontramos a fala “eido”, forma muito mais prolífica no galaico-português e a única presente na toponímia galega, se exceptuarmos as duas ocorrências de O Aido na província da Corunha.
Aidinho (Requeixo), Aido de Baixo (Eirol), Aido do Bicho (Nariz), Aido do Carocho (Requeixo), Aido de Cima (Nariz), Aido do Cosme (Requeixo), Aido do Couteiro (Aradas), Aido do Entrudo (Eixo), Aido da Fonte (Cacia), Aido do Garrido (Aradas), Aido da Igreja (Eirol), Aido do Machinho (Cacia), Aido do Marco (Oliveirinha), Aido Maria Morais (Eirol), Aido do Padre (Nariz), Aido do Pereira (Nariz), Aido da Poça (Eirol), Aido do Queirós (Aradas), Aido do Remédio (Oliveirinha), Aido do Roque (Oliveirinha), Aido do Silva (Glória), Aido(s) da Velha (Nariz), Aido Velho (Eirol), Aidos (Esgueira, Nariz, Oliveirinha, Requeixo e Vera Cruz), Aidos de Azurva (Esgueira), Aidos da Capela (Esgueira), Aidos de Cilha (Nariz), Aidos de Cima (Requeixo), Aidos do Porto de Ílhavo (Nariz), Aidos da Torre (Cacia), Aidos de Verba (Nariz), Aidos da Vessada (Nariz), Cabeço dos Aidos (Aradas), Cabo dos Aidos (Aradas), Castro dos Aidos (Oliveirinha), Lavouras de Trás-dos-Aidos (Oliveirinha), Serrado de Trás-dos-Aidos (Aradas), Trás-dos-Aidos (Aradas, Eixo, Glória, Oliveirinha e Requeixo).
Portugal (ocorrências registadas na Carta Militar 1:25 000; entre parênteses os respectivos concelhos):
Aido (concelhos de Barcelos, Castelo de Paiva, Cinfães e São Pedro do Sul), Aido d'Além (Albergaria-a-Velha), Aido de Baixo (Vale de Cambra), Aido de Cima (São Pedro do Sul), Aidos (Trofa e Vila Nova de Gaia), Azenha do Aido (Estarreja), Cabeço do Aido (Cantanhede), Chã do Aido (Cinfães), Quinta do Aido (Marco de Canaveses).
Baixo do Eido (concelho de Ponte de Lima), Cabo do Eido (Arcos de Valdevez), Casa Abrigo da Pena do Eido (Ponte da Barca), Costa do Eido (Ponte da Barca), Eido [concelhos de Amarante (4), Amares, Arcos de Valdevez (2), Baião (2), Barcelos (4), Braga (2), Castro Daire (2), Celorico de Bastos (3), Felgueiras (2), Guimarães (4), Lamego, Mesão Frio, Monção, Ponte da Barca (2), Ponte de Lima, Vila Real e Vizela], Eido de Baixo [Barcelos, Fafe, Felgueiras, Ponte de Lima (2), Vieira do Minho], Eido de Cima (Amarante, Barcelos, Ponte de Lima, Valença), Eido do Marzagão (Braga), Eido Novo (Valença), Eido Velho (Ponte de Lima), Eidos [Barcelos (2), Felgueiras, Fornos de Algodres, Guimarães (3), Marco de Canavezes, Vila Verde (2)], Entre o Eido (Paredes de Coura), Quinta do Eido (Lousada), Ribeira do Eido (Vila Real), Vale do Eido (Guarda).
Eido de Lamas, Eido de Ribeira, Eidobispo, Eidos, Eidos de Limia, Eidos de Riba, Eidos Vellos, Entreeidos, O Eido, O Eido da Tendeira, O Eido de Abaixo (2), O Eido de Arriba (3), O Eido de Baixo, O Eido de Caneiras, O Eido do Crego, O Eido do Macho, O Eido do Monte, O Eido Fernández, O Eido Gonzalo, O Eido Vello (5), O Medio do Eido, O Val do Eido, Os Eidos (8), Os Eidos de Abaixo (4), Os Eidos de Arriba (2), Os Eidos do Medio, Riba do Eido, Viso dos Eidos.
bibliografia:
LAPESA, Rafael (1991) – Historia de la lengua Española. Prólogo de Ramón Menéndez Pidal. 9a ed. corrig. e aum; 7a reimp. Madrid: Editorial Gredos. 690 p. (Biblioteca Románica Hispánica/Manuales; no 45). ISBN 84-249-0072-3.
segunda-feira, 21 de maio de 2007
Agra, Agrela, Agrinha, Agro, Agrelo, Agrinho. Do latim hispânico à toponímia.
Em português, o substantivo “agro” é apelativo para “terreno cultivado ou potencialmente cultivável, campo”, o mesmo se podendo dizer de “agra”, que já aparece no Nobiliário do conde D. Pedro como sinónimo da forma masculina, a designar uma “terra lavradia”.
No galego temos igualmente o substantivo masculino “agro”, designando uma “extensión de terreo cultivable, pequeno e da propiedade dunha soa persoa”, enquanto o feminino “agra” é apelativo para “conxunto de parcelas de labradío pertencentes a varios propietarios e pechadas por un valado común”
A marca do feminino dever-se-á, porventura, à atracção de “terra”, de que temos um registo no microtopónimo “Terras das Agras”, na freguesia de Nariz, concelho de Aveiro. Um comentário de Orlando Ribeiro, inserido numa caracterização da economia antiga do Noroeste hispânico, e referido a este apelativo, parece dar razão a esta hipótese:
Os cereais eram todos de sequeiro e exigiam terras enxutas (agras), onde se cultivavam alternadamente espécies de Inverno ─ trigo, centeio, cevada ─ e de Verão ─ milho alvo e painço (Ribeiro, 1986: 111-112).Na Galiza as "agras" constituíram uma forma de organização agrária, havendo pelo menos duas em cada aldeia, uma para cada folha de cultivo. Eram amplos terrenos de cultivo, principalmente de cereais, que, embora delimitados no seu conjunto, estavam divididos em parcelas abertas. Estes campos galegos tinham, nalguns casos, outras denominações, como veiga, vilar ou estivo (Villares, 1991: 27), e eram os usos colectivos que regiam o ritmo dos respectivos trabalhos, e determinavam o tipo e a alternância de cultivos (EGU, vol. 1, p. 217).
No Norte de África encontramos a voz berbere aghrum, com o significado de “pão”, coincidente com a forma latina, mas por certo um empréstimo desta língua, considerando o largo período de presença romana em toda esta zona.
Para Joseph Piel (1989: 56), arcaísmos e galego-minhotismos como agro, agra, agrela, conservados na toponímia, identificam-se com o latim-hispânico falado na Galécia, ainda durante a época romana, província que já então ganhara foros de especificidade, face à latinidade de outras regiões da península.
Portugal, concelho de Aveiro (são quase todos microtopónimos; entre parênteses a respectiva freguesia): Agra (Aradas; Cacia; Esgueira, Glória), Agra dos Andoeiros (Esgueira), Agra de Aradas (Aradas), Agra de Baixo (Aradas), Agra de Cacia (Cacia), Agra de Cima (Cacia; Esgueira), Agra do Couto (Glória), Agra do Crasto (Aradas), Agra de Dentro (Cacia), Agra de Esgueira (Esgueira), Agra do Facho (Esgueira), Agra de Fora (Esgueira), Agra dos Frades (Glória), Agra Grande (Esgueira), Agra Grande das Ribas (Esgueira), Agra dos Judeus (Glória), Agra de Mariola (Esgueira), Agra do Meio (Cacia), Agra Moreira (Esgueira), Agra do Norte (Cacia), Agra Nova (Cacia), Agra do Paço (Esgueira), Agra da Pedra de Moura (Aradas), Agra Pequena (Esgueira), Agra das Ribas (Esgueira), Agra das Roçadas (Esgueira), Agra de Sá (Vera Cruz), Agra de São Tomás (Glória), Agra dos Selões (Cacia), Agra de Verdemilho (Aradas), Agra de Vilarinho (Cacia), Agras (Taboeira, freguesia de Esgueira), Agrinha(s) (Glória), Agro (Eixo; Esgueira; Requeixo), Chão da Agra (Cacia), Portal da Agra (Esgueira), Rua da Agra (Cacia), Terras das Agras (Nariz), Viela da Agra (Aradas; Esgueira), Vinha da Agra (Cacia).
Portugal (ocorrências registadas na Carta Militar 1:25.000):
Agra (47), Agra Boa, Agra da Apúlia, Agra da Pedra, Agra de Além, Agra de Alvar, Agra de Baixo, Agra de Bouças, Agra de Cima (2), Agra de Friope, Agra de Ordins, Agra de Sol, Agra do Barreiro, Agra do Crasto, Agra do Matinho, Agra Maior (2), Agra do Monte, Agra Nova (2), Agras (30), Agras de Cidai, Agras de Oliveira, Agras do Rio, Agrelas (35), Agrelo (21), Agrelo de Baixo, Agrelo de Cima, Agrelos (17), Agres (4), Agria (2), Agriboa, Agricha, Agrichouso, Agriela, Agrinha (4), Agro (13), Agro de Baixo, Agro do Monte, Agro Velho (3), Agroal (2), Agrobom, Agrochão (4), Agrochão de Além, Agrochão de Cima, Agrolongo, Agropilheiras, Agros (5), Agrosso, Agrovelho, Agruela, Carreira de Agra, Casa das Agras, Casa de Agra, Casa do Agro, Casal da Agreireira, Casal do Agrão, Chão de Agrela, Chão de Agro, Costa da Agrela, Costa do Agrancho, Couto do Agro, Cruz de Agra, Fraga de Agrelos, Lomba dos Agros, Pedra do Agro, Poço do Agro, Ponte de Agrela, Portela do Agro, Porto de Agra, Porto de Agre, Quinta da Agra, Quinta do Agrinho, Regato de Agras, Ribeira de Agrebom, Ribeira dos Agros, Ribeiro da Agrela, Ribeiro de Agrebom (2), Rio Agro (2), Rio de Agrela, Serra da Agrela, Tapada dos Agrões, Vale Agreiro, Vale da Agrela, Vale de Agrelo, Vale de Agrozelo.
Galiza (ocorrências registadas no Nomenclátor de Galicia):
A Agra (11), A Agra Boa, A Agra da Pedra, A Agra das Arcas, A Agra das Breas, A Agra de Abaixo, A Agra de Pares, A Agra de Samosteiro, A Agra de Vales, A Agra do Fondo, A Agra do Mero, A Agramuíña, A Agraxoiba, A Agrela (13), A Agrela de San Vicente, A Agriña (2), A Cruz de Agrelo, A Fonte da Agra, As Agras (2), Agra (7), Agra de Abaixo, Agra de Arriba, Agra do Regueiro, Agra Pequena, Agrafoxo, Agramaior, Agramar, Agramonte (2), Agranzón, Agravil, Agrazán, Agreimonde, Agrela, Agrelo (6), Agrelos (2), Agrexán, Agris (3), Agro da Cuña, Agro do Chao, Agro do Monte, Agrochail, Agrochao (2), Agrochouso, Agrocovo, Agrodosío, Agroi, Agrolento, Agrolongo (2), Agromaior (4), Agrón, Agronovo, Agros Chaos, Agrosagro, Agrosantiño, Agrovello (2), Agroxoi, Agruchave, Agrufeixe, Agruñá, Anllóns de Tras dos Agros, Arriba do Agro, As Agrolazas, Casal de Agra, Campo da Agra, Montaña de Agra, O Agrande, O Agrelo (2), O Agriño (8), O Agro (7), O Agro da Area, O Agro da Moa, O Agro de Quinta, O Agro do Mestre, O Agro do Pobre, O Agro do Santo, O Chan da Agra, O Cimo da Agra, Os Agriños, Os Agros (3), Os Agros da Vila, Penadagra, Santalla de Agrón, Tras da Agra (2), Tras do Agro.
Bibliografia:
EGU – Enciclopédia Galega Universal. Vigo: Ir Indo, 1999-2006. 16 vol.
PIEL, Joseph-Maria (1989) – Estudos de linguística histórica galego-portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1989. 282 p. (Estudos Gerais/Série Universitária).
RIBEIRO, Orlando (1986) – Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico: esboço de relações geográficas. 4a ed. rev. e ampl. Lisboa: Livraria Sá da Costa. 189 p. (Nova Universidade; no 13)
VILLARES, Ramón (1991) – História da Galiza. Lisboa: Livros Horizonte. 181 p. (Horizonte Histórico; no 38). Tradução de “Historia de Galicia”, Madrid, Alianza Editorial. ISBN 972-24-0812-7.
quarta-feira, 16 de maio de 2007
Mártires da Liberdade (2): efemérides
Como dissemos numa postagem anterior , em 16 de Maio de 1828 começou em Aveiro uma revolução liberal, com fortes ligações ao Porto, que pretendia pôr fim ao golpe absolutista de D. Miguel. A tomada de posição do Porto estava prevista para o dia 17, mas, acontecimentos imprevistos, levaram à antecipação para o dia 16.
Na preparação desta revolução destacaram-se os membros da maçonaria local, nomeadamente os elementos da loja maçónica que funcionou em Aveiro, nas instalações da Quinta dos Santos Mártires (junto à capela homónima, na actual Baixa de Santo António), bem como a maior parte dos oficiais do Batalhão de Caçadores 10.
Neste breve apontamento, destacamos: o desembargador Joaquim José de Queirós(avô de Eça de Queirós); o desembargador Francisco José Gravito da Veiga e Lima; o corregedor da comarca Francisco António de Abreu e Lima; Luís Cipriano Coelho de Magalhães, médico e pai de José Estêvão; João dos Santos Resende, negociante e vice-cônsul da Suécia e Noruega, cuja mercearia (na Praça do Comércio, actual Praça Joaquim de Melo Freitas) era um dos pontos de encontro dos constitucionalistas locais; Manuel da Cruz Maia, sacerdote e farmacêutico, com farmácia na Rua Larga (actual Rua de José Estêvão), outro ponto de encontro dos constitucionalistas aveirenses mais radicais; Custódio José Duarte e Silva, quartel-mestre das milícias de Aveiro; Francisco Silvério de Carvalho Magalhães Serrão, fiscal do contrato do tabaco; Manuel Coelho de Moura, capitão reformado; Vicente José de Almeida, capitão de veteranos; os irmãos José e João Henriques Ferreira; o coronel José Júlio de Carvalho, comandante de Caçadores 10; Manuel Maria da Rocha Colmieiro, tenente-coronel de milícias; os irmãos Morais Sarmento (Clemente, Evaristo, João António, António Joaquim e Jerónimo); João de Sousa Pizarro, capitão de Caçadores 10; e dezenas de outros nomes identificados pelo historiador e aveirólogo Marques Gomes (1928, passim).
Entretanto, em Coimbra, alguns filhos de Aveiro alistaram-se no Batalhão Académico, como foi o caso de Manuel José Mendes Leite (3o ano de Leis), Francisco António Resende (4o ano de Medicina), Francisco José de Oliveira Queirós (2o ano de Matemática e Filosofia), Manuel Ribeiro Dias Guimarães (Filosofia Racional e Moral) e José Estêvão Coelho de Magalhães (1o ano de Leis).
A direcção dos trabalhos que levaram a esta revolução coube ao desembargador Joaquim José de Queirós, que viria a integrar a Junta do Porto. A grande maioria dos chefes políticos e militares das forças liberais não se mostraram à altura das suas responsabilidades, condenando este movimento ao fracasso. Restou a fuga, cobarde nuns casos, corajosa noutros, o homizio e o exílio. Fuga cobarde dos elementos da Junta que abandonaram tudo e todos para embarcarem no navio Belfast, em direcção a Inglaterra; fuga corajosa dos chefes militares e de alguns políticos, como o Conselheiro Queirós, que optaram por acompanhar as tropas desmoralizadas, sob péssimas condições meteorológicas, atravessando toda a Galiza, para embarcarem nas costas do Cantábrico, em direcção aos miseráveis barracões que os aguardavam em Plymouth. O exílio ou o homizio duraria até 1832, quando as forças liberais, comandadas por Pedro IV (o imperador Pedro I do Brasil) desembarcaram na Praia de Arnosa do Pampelido, perto do Mindelo, para, passados dois anos de feroz guerra civil, controlarem o País e reinstaurarem o Liberalismo.
Toponímia urbana aveirense:
Beco do Batalhão de Caçadores 10, à entrada da rua anterior.
Rua do Capitão João de Sousa Pizarro, na freguesia da Glória, começa na Rua de 31 de Janeiro e termina na Avenida de Artur Ravara. Capitão de Caçadores 10, morreu em 1828, nos combates da Cruz de Morouços.
Praça 14 de Julho, na freguesia da Vera Cruz, começa no Largo da Apresentação e termina na confluência da Rua dos Mercadores e da Rua de Domingos Carrancho. Data alusiva à Tomada da Bastilha, é dia nacional da França.
Rua de Clemente Melo Soares de Freitas, na freguesia da Glória, começa no Cais dos Moliceiros e termina na Rua da Liberdade. Clemente da Silva Melo Soares de Freitas era advogado em Aveiro; na sequência da revolução, a Junta do Porto nomeou-o juiz de fora na Vila da Feira; foi um dos justiçados na forca, em 7 de Maio de 1829.
Largo do Conselheiro Queirós, na freguesia da Glória, Bairro do Alboi, na confluência da Rua Dezasseis de Maio com a Rua Clemente de Melo Soares de Freitas. Joaquim José de Queirós e Almeida foi chefe do movimento liberal de 16 de Maio de 1828, conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, ministro da Justiça.
Rua do Conselheiro Queirós, na freguesia de Aradas, em Verdemilho. Arruamento onde fica a antiga casa (Quinta da Torre), hoje em ruínas, do Conselheiro Queirós. Daqui saía todas as tardes, montado numa jumentinha, em direcção ao estabelecimento de João dos Santos Resende, ponto de encontro e de cavaqueira política dos liberais constitucionalistas.
Rua de 16 de Maio, na freguesia da Glória, começa no Cais do Alboi e termina na Rua de Magalhães Serrão. Lembra a data do início da revolução de 1828, em Aveiro e no Porto.
Rua de Domingos Carrancho, na freguesia da Vera Cruz, começa na Praça de Joaquim de Melo Freitas e termina na Praça de Catorze de Julho. Domingos dos Santos Barbosa Maia, “O Carrancho” (alcunha que lhe veio por ser proprietário de umas terras de cultivo denominadas as “Carranchas”, em Verdemilho. Domingos Maia esteve envolvido nos acontecimentos de 16 de Maio e teve de exilar-se para fugir à perseguição miguelista. Foi tesoureiro da Alfândega de Aveiro, chefe cartista local e presidente da Câmara de 1842 a 1845, período em que trouxe para a cidade a iluminação pública e muitos outros melhoramentos.
Rua do Gravito (antiga Rua de São Paulo), na freguesia da Vera Cruz, começa na Rua de Manuel Firmino e termina na Rua do Carmo. Francisco Manuel Gravito foi fidalgo da casa real, cavaleiro professo da ordem de Cristo, desembargador dos agravos da Casa da Suplicação, corregedor do cível da corte, deputado e conselheiro de Estado por nomeação de D. Pedro IV, datada de 1827.
Rua de João Henriques Ferreira, na freguesia da Vera Cruz, começa na Rua de D. Jorge de Lencastre e termina na Rua do Dr. António Cristo. João Henriques Ferreira Júnior era um jovem liberal residente em Albergaria-a-Velha, que se alistou no Batalhão de Voluntários D. Pedro IV, formado em Aveiro aquando dos acontecimentos de 1828. Entrou em combate contra os miguelistas entre A-dos-Ferreiros e Talhadas. Tendo fugido para a Galiza, regressou a Aveiro onde acabou por ser preso. Foi enforcado no Porto em 9 de Outubro de 1829.
Rua de José Estêvão (antiga Rua Larga, no troço superior; Largo das Tripas, no troço central; Viela do Açougue ou Rua de Trás dos Mercadores, no troço inicial), na freguesia da Vera Cruz, começa na Rua Viana do Castelo e termina na confluência da Rua António Cristo com a Rua de Manuel Firmino. José Estêvão Coelho de Magalhães participou nos acontecimentos de 16 de Maio, integrando o Batalhão Académico, exilou-se em Inglaterra e dali seguiu para os Açores. Acompanhou depois as tropas de D. Pedro IV, que desembarcaram no Mindelo, destacando-se nos combates do cerco do Porto (1832-1833). Até à sua morte, em 1862, teve uma agitada vida política, sempre na primeira linha da luta pelos ideais da Liberdade.
Rua de Luís Cipriano, na freguesia da Glória, começa na Rua do Batalhão dos Caçadores 10 e termina na Rua de Gustavo Ferreira de Pinto Basto. Luís Cipriano Coelho de Magalhães era médico e pai de José Estêvão; foi membro da loja maçónica dos Santos Mártires e liberal constitucionalista. Teve de homiziar-se na sequência dos acontecimentos do 16 de Maio de 1828.
Rua de Luís Gomes de Carvalho, na freguesia da Vera Cruz, começa na Avenida do Dr. Lourenço Peixinho e termina na Rua do Almirante Cândido dos Reis. Coronel de engenharia e encarregado das obras da barra de Aveiro; foi membro da loja maçónica dos Santos Mártires, em Aveiro, e teve aqui um papel de destaque aquando da revolução de 1820, sendo um dos principais chefes do liberalismo local. Morreu em 1826.
Rua de Magalhães Serrão, freguesia da Glória, começa na Rua dos Santos Mártires e termina na Rua da Arrochela. Francisco Silvério de Carvalho Magalhães Serrão, nasceu em 1774 em Figueiró dos Vinhos. Residia em Aveiro onde desempenhava as funções de fiscal real do contrato do tabaco. Foi um dos principais dirigentes da revolução, tendo sido preso quando se deslocava de barco na Ria de Aveiro, levando consigo muitos documentos que o incriminavam e vinte e cinco armas carregadas, que pertenciam ao batalhão de voluntários que comandava.
Rua de Manuel Luís Nogueira, (antiga Rua do Norte), na freguesia da Vera Cruz, começa na Rua de São Bartolomeu e termina no Cais de São Roque. Nasceu em 14 de Março de 1774 na freguesia de Baltar. Era bacharel em Direito e exercia a profissão de advogado no Porto, quando o governo liberal revolucionário (Junta do Porto) o nomeou juiz de fora em Aveiro, lugar de que tomou posse em 4 de Junho de 1828.
Travessa da Maria da Fonte, na freguesia de Esgueira, começa na Travessa da Patuleia e termina na Rua Vicente de Almeida d'Eça. Lembra a Revolução da Maria da Fonte, em Abril de 1846, contra a política dos Cabrais.
Rua de Mendes Leite, na freguesia da Vera Cruz, começa na Praça de 14 de Julho e termina na Praça de Jaime de Magalhães Lima. Manuel José Mendes Leite integrou o Batalhão Académico em 1826 e 1828. Foi um dos exilados em Inglaterra, tendo acompanhado sempre o seu grande amigo José Estêvão. Foi jornalista, parlamentar e governador civil de Aveiro em três períodos distintos, desempenhando ainda outros cargos de natureza política. Em 10 de Março de 1852 apresentou uma proposta de adenda ao parágrafo 18 do artigo 145 da Carta Constitucional, em que se acabava com a pena de morte por crimes políticos; a proposta foi aprovada e entrou em vigor no dia 5 de Junho do mesmo ano, aquando da promulgação do Acto Adicional à Carta Constitucional de 1826.
Travessa da Patuleia, na freguesia de Esgueira, começa na Rua Adriano Serra e termina na Rua de Dias Cainarim. Lembra as sublevações populares, que tiveram lugar um pouco por todo o País, na continuação dos acontecimentos ligados à rebelião da Maria da Fonte.
Rua do Sargento Clemente Morais (antiga Rua do Sol), na freguesia da Vera Cruz, começa no Largo da Apresentação e termina na Rua de Antónia Rodrigues. Foi um dos justiçados na forca, em 9 de Outubro de 1829, pela sua participação nos acontecimentos do 16 de Maio de 1828.
bibliografia:
GOMES, Marques — Aveiro berço da Liberdade: A revolução de 16 de Maio de 1828. Aveiro: [Câmara Municipal], 1928. 88 p.
sexta-feira, 11 de maio de 2007
Achas para um enredo. A propósito do feriado municipal de Aveiro (12 de Maio)
Tem Aveiro dois beatos de peso, um e outro canonizados na rua, mas não na Igreja Católica. Um, “São” Gonçalinho, é obra popular, de construção beira-marense, com dança dos mancos dentro da capela, e bodo de cavacas, atiradas do alto da mesma, com força de abrir cabeças; outro, “Santa” Joana, beatificada pela Igreja e canonizada pelo clero local, num trabalho de sapa que recua ao século XVI e se prolonga nos nossos dias.
Esta nossa beata, padroeira da cidade, com direito a culto local, e só local, entrou em Aveiro anunciada por um cometa, tal qual o menino de Belém, secou o pomar do mosteiro com a simples passagem do seu féretro, e ainda veio do outro mundo para dois dedos de conversa com as freiras mais chegadas (Dias, 1987: fl. 34v-35v; 82v; 85v-87v).
O dia 12 de Maio, data da sua morte, foi arvorado em feriado municipal, substituindo o dia 16 de Maio, em que se lembravam os mártires da Liberdade, vítimas dos algozes a soldo do absolutismo miguelista, e a revolução liberal iniciada em Aveiro.
Para meditação dos crentes e não-crentes, nesta data de sossego municipal, este ano ao serviço do patronato, já que ocorre num fim de semana, deixamos dois documentos e algumas datas, o princípio de um enredo que merecia alguns fólios de ficção. Bem hajam!
Documento 1:
Capítulo CLXVIII da Crónica de D. Afonso V
«De como a Infanta Dona Joana filha de El-Rei foi metida no Mosteiro de Odivelas; e daí ao Mosteiro de Aveiro, e doutras coisas que El-Rei fez.
A Infanta Dona Joana filha de El-Rei estava a este tempo em Lisboa, com tão grande casa de donas e donzelas e oficiais como se fora rainha; e porque fazia sem necessidade grandes despesas, e assim por se evitarem alguns escândalos e prejuízos que em sua casa, por não ser casada, se podiam seguir, El-Rei por concelho que sobre isso teve, logo no mês de Outubro deste ano a apartou e em hábito secular, e com poucos servidores a pôs no Mosteiro de Odivelas em poder da Senhora Dona Filipa sua tia, em idade de 18 anos. Donde foi depois mudada para o Mosteiro de Jesus de Aveiro. Onde sem casar com nome de honesta e mui virtuosa, acabou depois sua vida em idade de trinta e seis anos. E neste ano faleceu o Papa Paulo, e sucedeu em Roma, na cadeira de S. Pedro, o Papa Sixto IV, a quem El-Rei mandou com sua obediência Lopo de Almeida» (Pina, 1904: vol. 3, p. 68).
Documento 2:
Museu Regional de Aveiro, Livro dos Registos da Câmara da Vila de Avewo, do séc. XVII, fl. 20, v.
E porém mandamos ao nosso corregedor em a dita comarca, e aos juízes da dita vila e a quaisquer outros nossos juízes e oficiais e pessoas a que o conhecimento disto pertencer esta nossa carta for mostrada que não consintam aos sobreditos estar mais em ela que o tempo aqui por nós limitado. E cumpram e façam em tudo cumprir e guardar esta nossa carta como se em ela contém sem lhe nisso ser posto outra dúvida nem embargo algum porque assim é nossa mercê.
Factos e datas:
D. Afonso V, rei (1432-1481).
Rui de Pina, autor da Crónica de D. Afonso V (1440-1522).
D. João II, rei (1455-1495): filho de D. Afonso V; irmão da infanta Joana.
D. Jorge de Lencastre (1481-1550): filho de D. João II e de D. Ana de Mendonça, dama de D. Joana, a segunda mulher de D. Afonso V; duque de Coimbra; marquês de Torres Novas; senhor de Aveiro; senhor de Montemor; mestre da Ordem de Avis; mestre da Ordem de Santiago; foi criado em Aveiro, no mosteiro de Jesus, por sua tia D. Joana, passando para a Corte depois da morte desta.
Bibliografia:
DIAS, Nicolau (1987) — Vida da Sereníssima princesa Dona Joana filha d'El-Rei Dom Afonso o Quinto de Portugal. Aveiro: Diocese de Aveiro. [16], [xvi] p., 88 fl. Edição fac-similada da 1a edição de 1585.
MADAÍL, António Gomes da Rocha (ed.) (1959) — Milenário de Aveiro. Colectânea de Documentos Históricos. Vol. 1, 959-1516. Aveiro: Câmara Municipal. XVII, 330 p.
PINA, Rui de (1904) — Chronica de El-Rey D. Affonso V. Introd. G. Pereira. Lisboa: [s.n.]. 3 vol. [Vol. 1: 159 p.; vol. 2: 160 p.; vol. 3: 152, XIV p.] (Biblioteca de clássicos portugueses).